Editorial: Comida feita para vender não sustenta os territórios
- Fátima Tertuliano
- 30 de ago.
- 2 min de leitura
Atualizado: há 7 dias
Por Fátima Tertuliano*
Falar sobre alimentação quilombola é falar sobre muito mais do que aquilo que chega nas nossas cozinhas. É falar de terra, água, memória, trabalho, cuidado, ancestralidade e do direito das comunidades de continuarem existindo e produzindo seus próprios modos de cultivo que lhes garantem a vida, garantindo assim a nossa soberania alimentar.
É a partir desse entendimento que nasce esta série de cinco textos produzidos por comunicadoras/es e jornalistas quilombolas das cinco regiões do Brasil. São reportagens e artigos que partem dos próprios territórios para discutir soberania alimentar quilombola, racismo ambiental e racismo alimentar, aproximando a comunicação das experiências vividas diariamente pelas comunidades.
Ao longo da série, você encontrará diferentes realidades, mas também questões que se atravessam. A produção de alimentos nos quintais e nas roças, os conhecimentos transmitidos pelas pessoas mais velhas, a relação com as águas, as formas tradicionais de cultivo e preparo da comida. Além dos desafios como as mudanças climáticas, os conflitos territoriais, o avanço de grandes empreendimentos, a transformação dos hábitos alimentares e a crescente dependência de produtos que vêm de fora dos territórios. Que nos fazem acreditar que: “o que produzimos não é o suficiente para nos alimentar!”

São histórias que mostram também que a comida quilombola permanece como lugar de resistência.
Quando uma família mantém seus roçados e quintais produtivos, quando um conhecimento sobre plantio passa de uma geração para outra, quando uma comunidade luta para proteger um rio ou quando continua produzindo seus alimentos mesmo diante das pressões sobre o território, existe ali uma defesa da autonomia, da cultura e da própria continuidade do modo de vida quilombola.
Ao mesmo tempo, esta série busca provocar uma reflexão sobre as desigualdades que determinam quem tem acesso à terra, à água limpa e à alimentação saudável, e sobre quem sofre primeiro e de maneira mais intensa os impactos da degradação ambiental. Por isso, discutir comida também significa discutir racismo, território, políticas públicas, direitos e justiça ambiental.
A proposta parte da Comunicação Ancestral e de uma escolha fundamental: contar essas histórias a partir de quem vive os territórios. Aqui, pessoas quilombolas não aparecem apenas como fontes ou personagens. São também autoras/es das narrativas, comunicadoras/es de suas comunidades e produtoras de conhecimento.

Nos cinco textos desta série, diferentes partes do Brasil se encontram por meio da comida, da terra e da palavra.
Mais do que explicar o que os quilombos comem, queremos compreender o que existe por trás do alimento: quem planta, quem ensina, quem cuida, quais conhecimentos permanecem, o que está ameaçado e quais estratégias as comunidades constroem para continuar alimentando seus corpos, suas memórias e seus territórios.
Porque defender a comida quilombola é também defender o direito ao território, a plantar, colher, partilhar, lembrar e continuar existindo.
*Fátima Tertuliano é Quilombola Kalunga (GO), jornalista, fundadora da Rádio Kalungueira e integrante da Rádio e TV Quilombo.
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Esta série de textos teve apoio do Programa Roçado: Comunicação frente à emergência climática. Uma iniciativa voltada para fortalecer redes de comunicação popular e comunitária com foco em justiça climática e sistemas alimentares. Mais informações: https://ojoioeotrigo.com.br/rocado.
Coordenação e edição da série: Fátima Tertuliano e Ludmila Pereira




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