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A prática das trançadeiras como ferramenta histórica na construção do saber quilombola e a sua importância na implementação da Lei n° 10.639/03

Evelen Kaísa
28 de out.
5 min de leitura

 Por Evelen Kaísa*


Quando se abre um livro didático, quase sempre é a mesma coisa: a pessoa negra representada em fotos antigas, trabalhando à força, acorrentada ou sofrendo. Mas é sempre bom lembrar que a história do nosso povo não se resume a dor, essas populações já existiam antes da chegada da escravidão. Quando olhamos para os quilombos, vemos uma história totalmente diferente, que o homem branco não conseguiu apagar. É a história de um povo que usa de suas próprias tecnologias para resistir e continuar vivo em seus territórios.


Uma dessas grandes tecnologias é o saber das trançadeiras, que diferentemente das trancistas, que atuam no mercado da beleza e na profissão, são mulheres cujo trabalho vai muito além de um ganho financeiro. A prática delas nasce no cuidado do dia a dia, no olhar atento de uma mulher com a outra dentro do quilombo e na preservação da memória de seu povo. Elas aprenderam a trançar com suas mães, avós e anciãs, e transmitem esse conhecimento para suas filhas e netas de geração em geração, exatamente como foi feito com elas. Assim, toda trançadeira pode vir a ser trancista, mas nem toda trancista, necessariamente é trançadeira.


Muito se ouve sobre como as tranças serviram como mapas que orientavam aqueles que se organizaram para resistir ao sistema escravocrata, e essa memória é confirmada por fatos documentados pela história oral e por pesquisas de mulheres negras na América Latina.  Em San Basilio de Palenque, o primeiro povoado livre das Américas, a historiadora Ziomara Asprilla García, a ativista Emilia Valencia e a pesquisadora Lina María Vargas registraram como os trançados funcionavam como um verdadeiro código secreto de navegação. Penteados com nomes e formatos específicos desenhavam a geografia do território, onde ficavam os rios, os pântanos e os caminhos seguros, além de servirem para esconder ouro e sementes de cultivo.


Essa tecnologia do trançado também se conecta à filosofia africana. Na tradição Yorubá, o Ori (a cabeça) é a parte mais sagrada do corpo, onde habita a nossa memória e espiritualidade. Unindo o pensamento decolonial e a cosmologia de matriz africana, intelectuais como Macha Mourine explicam que moldar os cabelos em desenhos e caminhos geométricos era uma forma de alinhar o poder da mente com a estratégia de libertação do seu povo.


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Tranças nagô sendo feitas durante o Encontrão da Teia dos povos e comunidades tradicionais do Maranhão. Foto: @verena_por_ai

Trançar é tecnologia ancestral 


A pesquisadora e cientista social Luane Bento dos Santos, ao estudar a história das tranças, destaca que na trama de cada trança existem saberes ancestrais matemáticos, artísticos e filosóficos. A divisão das mechas, a criação dos ângulos e a simetria no couro cabeludo são formas vivas de geometria e cálculo mental transmitidas de geração em geração. 


Pensar na implementação da Lei nº 10.639/03, que torna obrigatório o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas, é entender quem são as e os reais protagonistas desse projeto e a importância de nossos jovens e crianças se reconhecerem nesses lugares. Dentro dos quilombos, a educação não começa na sala de aula; ela nasce no cotidiano da comunidade. As festas populares educam, a cozinha é um laboratório de saberes tradicionais, o momento de trançar é uma aula de história e afeto, e no centro de todo esse aprendizado estão as mulheres, as grandes mestras e guardiãs da memória.


O ato de trançar leva tempo e exige proximidade. Assim, mães, tias e avós transmitem seu cuidado ao passo que ensinam sobre tempo, matemática, memória, geometria e história. Cada fio trançado guarda uma explicação: o cálculo da divisão do cabelo, o ritmo das mãos e o significado dos símbolos desenhados na cabeça. Mais do que isso, esse é o momento em que a criança ou o jovem escuta sobre de onde veio o seu povo, entende o valor de sua cor e aprende a ter orgulho de suas raízes. Assim, o espaço utilizado pela trançadeira se transforma em um lugar vivo que educa e acolhe, onde as conversas fortalecem a autoestima, perpetuam os valores da comunidade e ensinam a importância de honrar e respeitar a sabedoria dos mais velhos. 



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Preparação do cabelo para trançar. Foto: Danic Gomes

É por tudo isso que colocar o saber das trançadeiras nos livros didáticos, nas aulas e nas escolas não se reduz a falar de penteados: é reescrever a história de um país que foi construído por mãos negras, é dizer que os quilombos, não são apenas heranças da fuga daqueles que resistiram, mas que também produzem conhecimento.


Quando o livro de História substitui as imagens de corpos escravizados e acorrentados pelo registro de uma trançadeira quilombola exercendo sua ciência, sua arte e seu afeto, acontece uma transformação profunda. A criança negra deixa de encarar seu passado unicamente pela dor e o sofrimento, passando a se enxergar com orgulho, como legítima herdeira de pensadoras, cientistas e grandes construtoras de liberdade. 


Como indicação de leituras para aquelas e aqueles que se interessam pelo assunto e desejam que chegue até a sua sala de aula, segue abaixo algumas obras:



*Evelen Kaísa é quilombola do território de Santo Antônio dos Pretos Codó-MA. Trancista e Graduanda do curso de Licenciatura Interdisciplinar em Ciências Humanas/História pela Universidade Federal do Maranhão(UFMA), comunicadora e integrante da Rádio e Tv Quilombo.


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“Esta matéria foi produzida como resultado do projeto 'Raízes e Educação: cobertura de conteúdos para promoção da equidade racial periférica, quilombola e indígena na educação brasileira', realizado pela Coalizão de Mídias e Imagine Futures”.



 
 
 

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