Transmissão de saberes fortalece a alimentação e o cuidado com o território no quilombo Ilha de São Vicente, no Tocantins
Produção diversificada e formas de cultivo demonstram amor pelo território e pela natureza em comunidade de Araguatins; saiba como são os quintais produtivos de Antonino Noronha e Maria da Glória
Por Letícia Queiroz*
“Eu jamais deixaria de viver aqui no quilombo para ir morar na cidade”. A afirmação é de Antonino da Silva Noronha, quilombola da Comunidade Ilha de São Vicente, em Araguatins, Tocantins. O produtor rural de 40 anos encontrou no próprio território as condições para sustentar a família, cultivando alimentos no sistema agroflorestal, sem o uso de agrotóxicos e cuidando da natureza. Da terra, ele e outras famílias do quilombo tiram o alimento, o sustento e a própria renda.
Mesmo em uma área reduzida, Antonino cultiva diversas espécies.
“Eu tenho um pomar de goiaba tailandesa, tenho várias espécies de banana, tenho macaxeira, quiabo, cupuaçu, acerola, laranja e limão. Eu tenho graviola, manga. Graças a Deus, eu tenho vários tipos de plantio aqui. Também tenho hortaliças. Eu mexo com horta e também crio galinhas”, contou.
Ele decidiu produzir em um sistema agroflorestal, forma de cultivo que combina árvores, culturas agrícolas e, em alguns casos, animais no mesmo espaço, inspirada no funcionamento de uma floresta. Ao contrário da monocultura, que desmata grandes áreas e cultiva uma única espécie – exemplo das grandes plantações de soja no Tocantins –, a agrofloresta promove a diversidade e a interação entre as plantas, inclusive valorizando as espécies nativas, contribuindo para a conservação do solo, da água e da biodiversidade.
“Aqui eu faço um plantio dentro do outro para poder aproveitar mais a área porque a nossa área é pequena. E nessa produção a gente também pensa na proteção e na preservação da natureza. Aqui no fundo tem uma reserva, tem uma lagoa que a gente cuida para não secar. No nosso quilombo a gente se preocupa em preservar tanto a fauna quanto a flora”, explicou.
O aproveitamento estratégico do espaço é importante para a comunidade. Embora o território do Quilombo Ilha de São Vicente tenha sido titulado desde 2023, a comunidade ainda enfrenta conflito territorial provocado por invasões do território. Diante dessa realidade, as famílias encontraram nos quintais uma alternativa para manter a produção de alimentos, enquanto aguardam a desintrusão da área pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra).
A permanência de invasores no território limita a área disponível para o cultivo. Com grande parte da área ocupada de forma irregular, as famílias quilombolas enfrentam restrições para acessar espaços que poderiam estar sendo utilizados para roças, criação de animais, plantio de árvores frutíferas e plantas medicinais. Essa limitação reduz a produção, dificulta a ampliação dos sistemas produtivos das famílias que, historicamente, dependeram do próprio território para viver. Os quintais produtivos representam uma importante estratégia de resistência, mas não substituem o acesso pleno ao território tradicional.
Mas deixar de produzir não é uma opção. Além de garantir o sustento da família com alimentos frescos, as famílias como a de Antonino ainda conseguem vender parte da produção.
“Eu tenho mais de 100 galinhas. Para comer e para vender. E isso me dá uma certa segurança. Como eu tenho essas minhas criações, eu tenho carne para muitos dias. Tenho frango, galinha, galo, tenho outros tipos de alimentações também, né? A gente mora numa ilha no meio do rio Araguaia, então também não nos falta peixe. Aqui, se Deus quiser, nunca vai me faltar carne. E temos coco babaçu. Então eu posso produzir o meu azeite de coco”, diz.
Do fruto à palmeira do coco babaçu, praticamente tudo é aproveitado. Dele são produzidos azeite, leite de coco e outros alimentos ricos em nutrientes, como o mesocarpo. A casca é usada para fazer carvão e artesanatos, assim como as palhas para a cobertura de casas. Já a palmeira fornece matéria-prima para a construção de casas e até para a fabricação de adubo.

Mudanças no clima
Na comunidade, as mudanças no clima têm exigido cada vez mais adaptação no manejo da produção. Segundo Antonino, o calor intenso durante o verão aumenta a necessidade de irrigação, enquanto os períodos de chuvas mais fortes podem prejudicar o desenvolvimento das lavouras.
Além das diferenças naturais entre o inverno e o verão, as famílias também percebem mudanças que vêm se intensificando ao longo dos anos. O aumento das temperaturas, os períodos de estiagem mais prolongados, as irregularidades das chuvas têm alterado os modos de produzir e exigido novas estratégias de manejo. Com isso, práticas tradicionais de plantio precisam ser constantemente adaptadas para reduzir perdas e garantir a produção de alimentos.
Para não ter prejuízo, o planejamento do cultivo precisa acompanhar as estações. "A gente tem que se reorganizar para o inverno e para o verão para poder trabalhar com os plantios. No verão é muita irrigação. No inverno, quando chove demais, tem que reforçar a adubação e cuidar da produção", explica.

Ele conta que o adubo utilizado é orgânico e que a própria natureza produz o que é necessário para ajudar no crescimento das árvores, não sendo necessário uso de agrotóxico para ter frutas bonitas e saudáveis. “A bananeira, por exemplo, ela mesma produz o próprio adubo orgânico dela, que é a folha da banana, as cascas. Tem o coração do cacho da banana que se torna adubo também e que tem os nutrientes necessários. Ela mesma já produz o próprio adubo. Sempre orgânico”, conta.
Essa preocupação com a terra faz parte de um cuidado ancestral e do modo de vida da comunidade quilombola Ilha de São Vicente, onde o território é compreendido não apenas como um recurso, mas como um lugar de vida, memória e bem viver."
“Viver no Quilombo da Ilha de São Vicente é uma gratidão. Primeiramente a Deus e a todos os nossos familiares, né? Os nossos ancestrais, os antepassados. Hoje a gente está aqui graças a eles, que vieram antes e cuidaram daqui. Só gratidão a eles. E a gente está na ativa e nunca vamos deixar o quilombo morrer. Em momento algum eu sairia daqui para ir morar na cidade. Eu vivo mesmo daqui. Aqui é 100% melhor. Até o clima aqui é mais gostoso por causa das árvores que a gente preserva e tem o Rio Araguaia aqui na porta, entendeu? Tem uma lagoa ali no fundo. Então jamais eu trocaria. Eu amo esse lugar”, afirmou Antonino.
A glória de viver no quilombo

Maria da Glória Ferreira Rocha, de 52 anos, também vive no Quilombo Ilha de São Vicente. Filha de Virgílio Barros Rocha e Maria Rita Ferreira de Jesus, ela mantém um quintal produtivo onde cultiva legumes e cria galinhas. Ao lado do galinheiro, a horta reúne diferentes hortaliças, compondo uma alimentação saudável e variada produzida no próprio território.
“Eu estou criando galinha, e as galinhas elas botam, eu uso o ovo também para comer, para fazer bolo, ponho para chocar. Eu também estou com uma horta que eu plantei cheiro-verde, cebolinha, rúcula, couve. Plantei jiló, abóbora e beterraba também. Um pouquinho de cada coisa”, conta.
A criação de galinhas de Maria da Glória não começou com um grande investimento. Ela nasceu da solidariedade entre familiares e foi crescendo aos poucos. O que começou com a doação de uma galinha e dois pintinhos virou uma criação que hoje garante alimento para a família.
“Eu ganhei uma galinha com dois pintinhos. E na época eu coloquei dentro do meu coração a vontade de criar. E aí meu primo me deu uma galinha também, uma franguinha, meu irmão me deu outra e cada um me doou uma para um começo. Depois também comprei algumas e de lá para cá eu fiz elas se multiplicarem”.
Para ela, o interesse pela produção de alimentos foi despertado há muitos anos quando observava o trabalho do pai. Hoje, ela reconhece que a dedicação ao quintal produtivo é uma continuidade dos conhecimentos e práticas transmitidos pela família.
“Meu pai mexia com horta. E a história só está repetindo, né? Ele cuidava da horta e de criação aqui nessa casa, e aquilo despertou algo dentro de mim. E hoje aqui tem de tudo um pouco”, disse.
Saberes tradicionais
As experiências de Antonino e Maria da Glória mostram a diversidade, uma característica observada em muitas comunidades quilombolas. Em um mesmo espaço convivem hortaliças, frutas, árvores nativas, plantas medicinais e a criação de pequenos animais, formando sistemas produtivos baseados nos princípios da agroecologia. Mais do que produzir alimentos, esse modelo fortalece a soberania alimentar, conserva a biodiversidade e valoriza conhecimentos tradicionais transmitidos entre gerações.
Jorlando Ferreira Rocha também é liderança do Quilombo Ilha de São Vicente e atua na área da agroecologia. Licenciado em Ciências Biológicas, é especialista em Ciências da Natureza e Matemática pelo Instituto Federal do Tocantins (IFTO), mestre em Estudos de Cultura e Território, doutorando pelo mesmo programa na Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT) e educador popular da Comissão Pastoral da Terra (CPT).
Para Jorlando, a agroecologia praticada em muitos quilombos vai além de uma técnica de cultivo. Ela expressa uma forma de viver e de se relacionar com o território baseada na transmissão de conhecimento dos mais velhos.
“Muitas comunidades quilombolas, antes de pensar em produzir para gerar economia e lucro, pensam em produzir para o sustento da família, pensam em ter um espaço de vivência que lhe proporcione o bem-estar. O quintal, o sítio, é um espaço não apenas de produção para os quilombolas, mas de conexão, cuidado e sombra. Assim, as famílias plantam de tudo um pouco, tanto para alimentação das famílias, quanto para manter próximo das suas casas outros seres vivos. Não existe um espaço de monocultura exclusivo para frutas”.
Ele explica que os espaços são pensados para a diversidade e para o bem viver. “No mesmo espaço criamos galinha, porcos, cachorro, gato, pato e animais silvestres como papagaio e outros que podem fazer parte desse ambiente. Portanto essa integração para os quilombos, alimenta as famílias, proporciona o bem-estar, mantém uma diversidade ambiental, cria diversos bancos de sementes vivos e proporciona nesse espaço que é o quintal a troca de saberes entre gerações”, explicou Jorlando.

A liderança quilombola e especialista explica que o sistema agroflorestal adotado por Antonino não fortalece apenas a produção de alimentos, mas também aumenta a capacidade de adaptação do território às mudanças climáticas. “Algumas espécies florestais, frutíferas e alimentares são mais resistentes que outras, no entanto essa resistência por si só não é suficiente para garantir que determinada espécie venha a resistir às mudanças climáticas. Portanto, cada vez mais há a necessidade de que práticas como essas de Antonino na comunidade Quilombola Ilha de São Vicente sejam replicadas e mantidas”, explicou.
Valorização de árvores nativas
O compromisso com a preservação da natureza também se materializou em uma iniciativa de educação ambiental dentro do próprio território. Como parte de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), Jorlando coordenou a identificação e a sinalização de árvores nativas do Quilombo Ilha de São Vicente. A ação foi construída a partir dos conhecimentos compartilhados por anciãos da comunidade e buscou valorizar espécies florestais fundamentais para a biodiversidade, para o modo de vida quilombola e para a memória do território.

“A identificação das espécies florestais e seus usos, tanto pela comunidade quanto pelos animais. E isso tudo nasce de uma demanda da própria comunidade, principalmente por parte de pessoas que conhecem o território há bastante tempo, como o tio Salvador, tia Darluz, tio Pedro, tio Virgílio. Elas apontavam a importância da preservação das espécies nativas que tinham risco de acabar com as queimadas descontroladas causadas por pessoas mal-intencionadas”, conta.
Segundo ele, o objetivo foi sensibilizar tanto as novas gerações quanto os visitantes sobre a importância de conservar a natureza e os saberes associados a ela.
No quilombo Ilha de São Vicente, conservar as árvores nativas também significa garantir alimento na mesa. Espécies como o babaçu fornecem óleo, leite de coco e farinha do mesocarpo, além de matéria-prima para utensílios, artesanato e construções. Outras árvores oferecem frutos, sombra para os cultivos e ajudam a proteger as nascentes e lagoas que são importantes para a produção de alimentos e para a pesca. Assim, preservar a vegetação nativa é também uma forma de fortalecer a soberania alimentar da comunidade.
Com certa frequência, crianças do quilombo Ilha de São Vicente são incentivadas pelos pais, mães, tias e tios a plantar árvores pelo território. O gesto faz parte da transmissão de saberes entre gerações e reforça, desde cedo, a responsabilidade coletiva pelo cuidado com a terra e com o território.
No Quilombo Ilha de São Vicente, a transmissão de saberes é uma das principais fortalezas da comunidade. Essa valorização dos conhecimentos entre gerações também está presente em muitas outras comunidades quilombolas do Brasil.

“Não deixem de compartilhar seus saberes. Continuemos a aprender com os mais velhos. E com o capim, mucuna, gergelim, carrapicho, leucena, sabiá. Com plantas que têm facilidade para disseminar muitas sementes. Quando soltam suas sementes em abundância na terra, mesmo que elas não consigam sufocar todo o mato, e adubar toda terra, sua produção e perpetuação da espécie é garantida”, finalizou Jorlando.
No Quilombo Ilha de São Vicente, os saberes passam pelas mãos que plantam, pelas sementes que germinam, pelas árvores preservadas, pelos quintais cultivados e pelos alimentos que chegam à mesa. É no território que esses conhecimentos ganham sentido e seguem vivos entre as gerações. Por isso, defender a terra é também defender a produção de alimentos, a autonomia das famílias e o direito das futuras gerações de aprender, viver e permanecer no quilombo. Porque não há bem viver sem território livre. E não há território livre sem o direito de produzir o próprio alimento.

*Letícia Queiroz é quilombola da comunidade Ilha de São Vicente (TO) e jornalista.
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Esta série de textos teve apoio do Programa Roçado: Comunicação frente à emergência climática. Uma iniciativa voltada para fortalecer redes de comunicação popular e comunitária com foco em justiça climática e sistemas alimentares. Mais informações: https://ojoioeotrigo.com.br/rocado.
Coordenação e edição da série: Fátima Tertuliano e Ludmila Pereira




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