Do pilão ao saquinho, mudanças na produção e no consumo de alimentos na comunidade quilombola Furnas do Dionísio (MS)
Nas últimas décadas, cultivos direcionados ao autoconsumo perderam espaço para produtos adquiridos fora do território
Vitória Santos*
"A alimentação nós tirava daqui. Nós tirava do pilão. Hoje nós tiramos do saquinho. Vai saber como esse arroz veio pra nós?" A lembrança de Sebastião Martins, morador de Furnas do Dionísio há 70 anos, revela as significativas transformações vividas pelas famílias da localidade ao longo das últimas décadas. Se antes a comida consumida pelos moradores vinha do que era cultivado dentro do próprio território, hoje parte da alimentação passou a depender de alimentos comprados nos supermercados.
Localizada no município de Jaraguari, em Mato Grosso do Sul, a comunidade quilombola Furnas do Dionísio foi fundada há mais de um século por Dionísio Antônio Vieira e Joana Luiza de Jesus. Embora não existam registros conhecidos que indiquem a data exata de sua fundação, relatos de seus descendentes apontam que a chegada da família às terras ocorreu em 1890. Atualmente, cerca de 105 famílias vivem no local.
Foices, facões, enxadas e machados eram as principais ferramentas utilizadas para abrir as áreas de cultivo. A sobrevivência cotidiana exigia esforço, resistência e muito trabalho. Na terra plantavam arroz, feijão, milho e mandioca, alimentos que davam força e sustância para a lida diária. À medida que novas famílias se formavam, os mutirões tornaram-se frequentes nos roçados. Parentes e vizinhos se reuniam para plantar, capinar e colher, revezando a ajuda entre as propriedades.
Esse modelo de produção garantia uma diversidade alimentar que, segundo os agricultores, era muito maior do que a observada atualmente. "Era plantado feijão, milho. Tinha a mandioca, a batata. Tudo que eles achavam. O feijão de vara, amendoim. Hoje é bem poucas coisas que eles plantam. Nem o arroz, nem o feijão já não é plantado quase mais”, relembra a agricultora e produtora de farinha e derivados de cana-de-açúcar, Zeni Martins, de 52 anos, neta de Antônio Dionísio, filho mais velho dos fundadores.
As comidas presentes na mesa das famílias eram, em sua maioria, cultivadas dentro das próprias roças, quintais e criações, dando origem a pratos tradicionais como arroz com frango caipira, frango com guariroba, macarrão com galinha, bolo de goma e farinha de mandioca.
Para o agricultor e produtor de rapadura, Sebastião Batista da Silva, de 65 anos, a fartura era medida pela variedade do que se produzia e se criava nas propriedades. “Que que o povo falava. Se você tem milho no paió³. Você tem um porco gordo no chiqueiro, você tem banha na mesa. Se você tem mandioca na mesa, você tem uma galinha, você tem um ovo, tem uma coisa e outra, isso aí que o povo falava. E é verdade, né?".
O morador aponta que esses alimentos também ocupavam lugar central nas celebrações, eventos e festas tradicionais. "Antigamente o povo fazia festa de casamento. Matava aí dez, doze, quinze frangos. Matava um, dois porcos. Fazia aquela carne cheia, que o pessoal falava, aquela carne frita. Fazia um festão que tava tão gostoso. Hoje não. Hoje você vai fazer uma festa de casamento. Ou qualquer festa, se matar só frango, o pessoal nem vai."
Entretanto, esse cenário passou por mudanças significativas nas últimas décadas. O processo de transição alimentar vivido pelas famílias de Furnas do Dionísio é representado, principalmente, pela inserção de produtos ultraprocessados e industrializados, nas cozinhas tradicionais e pela implementação de novas práticas de cultivo.
Essas mudanças, contudo, não se limitam ao que chega à mesa das famílias. Elas revelam transformações na relação dos moradores com a terra, com o trabalho agrícola e com os conhecimentos transmitidos entre gerações.
O que mudou nas roças e cozinhas tradicionais?

Mesmo em um contexto de transição, o preparo artesanal da Rapadura permanece como uma das principais expressões da cultura alimentar de Furnas do Dionísio. A atividade é transmitida entre gerações desde a chegada dos fundadores e é uma das que menos sofreu alterações ao longo das últimas décadas.
Produzida a partir da garapa extraída da cana-de-açúcar, a rapadura constitui a principal fonte de renda de diversas famílias. A relevância dessa tradição também é reconhecida fora do território. Desde 2016, o Festival da Rapadura, realizado anualmente em Furnas, é reconhecido como Patrimônio Histórico e Cultural de Mato Grosso do Sul.

O processo de fabricação se inicia nos canaviais. Sob o sol escaldante, homens e mulheres realizam o corte da cana que dará origem à rapadura e outros derivados. Ao longo das décadas, a atividade incorporou mudanças, como a substituição dos engenhos movidos por força animal pela energia elétrica e dos carros de boi e carroças, utilizados para puxar a cana, por tratores. Ainda assim, o processo preserva características artesanais como as fornalhas de barro e os moldes de madeira.

Por outro lado, se a rapadura continua ocupando um lugar de destaque na cultura e na economia local, o mesmo não pode ser dito de outros alimentos que, no passado, faziam parte do cotidiano das famílias. Zeni Martins destaca algumas das mudanças ocorridas nos hábitos alimentares. “As comidas que eles comiam, parece que eles ficavam até mais fortes. Agora, a gente come todas essas comidas que tem muita química, essas coisaradas. Era muito difícil de usar banha, essas coisas, eram mais cozidas. E agora não, nóis vive mais pondo banha, nas panelas e isso prejudica muito a saúde.”
A moradora também observa que houve a substituição gradual de ingredientes tradicionalmente utilizados na comunidade, como o melado e a garapa, pelo consumo crescente de produtos industrializados, como o açúcar refinado.
Para Sebastião Martins, a alimentação do passado era um dos principais fatores que contribuíam para a saúde dos moradores. "Era mais forte. Comia arroz, feijão, milho, mandioca. Antigamente tinha o senhor que dava remédio aqui em Furnas, finado Siqueira dava remédio e não era tanta doença. Tinha aquela doença rara, né? Era uma rapidinha, mas não era todos que caíam naquela enfermidade. Hoje não, qualquer um de nós já está caindo. Antigamente não era assim, não. Não tinha esse tipo de matações¹ como tem hoje."
Das roças de toco ao trator
As roças de toco, como eram conhecidas na comunidade, eram abertas manualmente em um processo conhecido como destoca. Sem condições para uso de arados, os agricultores derrubavam a vegetação com ferramentas manuais, queimavam os restos e utilizavam as cinzas como adubo. Sebastião Batista relembra esse modo de cultivo. “As roças não tinham condições de ser arada. Não arava, a gente derrubava o mato, né, o matagal, derrubava, punha fogo e plantava terra de toco, que a gente falava, né, toco. E plantava de máquina (matraca), ou senão no cavucate².”

Os conhecimentos sobre as fases da lua orientavam o plantio e definiam o momento mais adequado para cada cultivo. Transmitidos principalmente por meio da oralidade, esses saberes passavam dos pais para os filhos e, posteriormente, para as novas gerações. Sebastião Batista explica que cada cultivo obedecia a ciclos específicos.
“Na lua nova, antigamente nós plantava arroz. Ah, vamos plantar arroz na lua nova, que dá bem. Mas feijão já não era necessário plantar na lua nova porque carunchava muito. O milho também na lua nova carunchava muito. Então nós plantava muito o feijão e a rama de mandioca na lua nova.”
Atualmente, porém, a realidade é diferente. Cultivos como arroz e feijão, que antes estavam presentes em praticamente todas as roças e quintais da comunidade, já não existem mais. Para o produtor, essas modificações estão ligadas ao aumento dos custos de produção e à facilidade de adquirir esses alimentos nos supermercados. "Hoje a despesa pra você plantar isso não é barata. Então é mais fácil, muita das vezes, não produzir, porque você tem que passar veneno e inseticida direto. Acho que no mercado sai mais barato, do que a despesa pra você plantar. Então é mais fácil, o cara ir no mercado pra comprar e planta outras coisas".

A mecanização do trabalho agrícola e a aquisição de novos maquinários, por meio da associação local, possibilitaram a ampliação das áreas de cultivo e reduziram o esforço físico necessário para o trabalho agrícola. Para Sebastião, essas mudanças trouxeram benefícios importantes.
“É melhor agora, né? Melhor agora que facilitou muito. Antes era muito dificultoso, era difícil, plantava porque nóis tinha de plantar mesmo, né pra comer.”
No entanto, esses avanços trouxeram novos desafios para os agricultores, como o aumento do uso de inseticidas nas plantações. “Olha, vou te falar a verdade. Naquela época, o povo não usava pra dizer nada. Quase não apareciam insetos. Vamos por uns 30, 40 anos atrás, a gente plantava, era a lei da natureza, a gente plantava e colhia. Hoje não tem como não usar inseticidas pra controlar os insetos. Hoje você plantou, você não consegue colher. Antes você plantava um pedacinho de nada, só que que? Produzia muito, né? Agora você planta muito. É mais fácil plantar muito, mas você produz pouco”, aponta Batista.
Essa percepção também é compartilhada por Zeni Martins que acredita que a forma de trabalhar com a terra, era mais sustentável e saudável.
“Era o jeito de trabalhar, né? Porque roçava, já queimava ali e plantava. Agora tem de jogar muito adubo, tem que estar preparando muito a terra, tem vezes que planta e nem sai ainda uma rama boa, uma mandioca boa, as coisas que planta. Não sai bem, não dá adubo na terra. Antigamente não, já plantava e já dava uns produtos muito bons”.
Se antes grande parte do que era cultivado tinha como destino a mesa das famílias, atualmente a produção agrícola está cada vez mais próxima dos mercados consumidores. Ainda assim, o autoconsumo permanece presente na rotina de muitos moradores. “A gente planta pra gente se alimentar. Mas só que muitas das vezes sobra um pouquinho, aí a gente vai pra venda, né?”, relata Sebastião Batista.
Em seu quintal, Zeni Martins mantém diferentes espécies frutíferas que complementam as refeições diárias. "Aqui no meu quintal tem várias frutas. Tem a laranja, tem ponkan, tem abacate, tem mamão."
Ela explica que a alimentação da família é composta tanto por alimentos produzidos internamente quanto por produtos adquiridos fora da comunidade. "As verduras, tem vezes que a gente planta, e umas vêm do mercado e outras do que a gente produz mesmo."
O milho cultivado na propriedade é utilizado como trato para os animais, enquanto produtos como a farinha e a rapadura, são comercializados. "O milho vai para as criações, para o porco, para a galinha. E a farinha, a rapadura que a gente produz, a gente vende. As pessoas procuram muito aqui na comunidade e também em Campo Grande".
Essa transição não significa, necessariamente, o abandono das práticas ancestrais de cultivo. Entre práticas que permanecem, se adaptam ou desaparecem, os moradores de Furnas do Dionísio seguem preservando os conhecimentos transmitidos pelos mais velhos enquanto se adpatam a nova realidade. Ao mesmo tempo, esses processos evidenciam os desafios de manter a autonomia na produção de alimentos e fortalecer a soberania alimentar dentro do território.
¹ Matações: expressão utilizada para se referir a diferentes tipos de doenças.
² Cavucate: expressão local utilizada para se referir a cavadeira, ferramenta manual utilizada para abertura de buracos na terra.
³ Paió: expressão local utilizada para se referir ao paiol, local destinado ao armazenamento de produtos agrícolas.
*Vitória Santos é quilombola da comunidade Furnas do Dionísio (MS) e jornalista. E-mail: svii0498@gmail.com
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Esta série de textos teve apoio do Programa Roçado: Comunicação frente à emergência climática. Uma iniciativa voltada para fortalecer redes de comunicação popular e comunitária com foco em justiça climática e sistemas alimentares. Mais informações: https://ojoioeotrigo.com.br/rocado.
Coordenação e edição da série: Fátima Tertuliano e Ludmila Pereira




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