VIVER É IMAGINAR E CONSTRUIR MUNDOS
Por Zica Pires*
Faz-se necessário questionar a invenção da branquitude, a invenção da raça e a manutenção do racismo. Faz-se necessário refletir sobre a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948, onde o errado fala de direito. Estabelece-se que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos, ficando expressamente proibido a escravidão/ESCRAVIZAÇÃO, a tortura e a discriminação, garantindo-se direito à vida, à liberdade, à segurança, à saúde, à educação e ao trabalho.
A humanidade é um sistema de opressão. A humanidade é uma falsa crença. A humanidade baseia-se na origem étnica e na cor da pele. A HUMANIDADE É UMA MONOCULTURA DAS FORMAS VIVENTES, UMA LINHA DE XEROCAMENTO. E É POR SI SÓ A INCAPACIDADE DA BRANQUITUDE EM CONVIVER COM BELEZAS ÉTNICAS.
ENFIM, TODO SER HUMANO, ASSIM COMO OS DEMAIS VIVENTES, TEM TAMBÉM DIREITO A MORRER.

PERCEBAM A BELEZA DAS MEMÓRIAS
Sereno é uma chuva parida por uma nuvem solitária. Choveu no Quilombo. Vovó desceu a ladeira grande. Ontem à noite foi de relâmpago e Ojó. No Cantar do Galo, vovó foi pro Igarapé – e a pé. Levou só sua saia, puçá, que carrega sempre no corpo, ah, e uma rudia no ombro. Noite de chuva é dia de fartura. Hoje no almoço tem Nikim, carambanja e sabão, assados no fugareiro, e pra jantar tem piaba no limãozin. No pé do limãozinheiro tem nós, uma penca de curumim milindroso, um pilão, um turá cheio de arroz, um balaio e três mão de pilão. Nós temos que limpar o arroz antes de vovó vim do igarapé, pois o arroz novo tem que estar só no ponto dela cozinhar.
Mas a nossa alegria mesmo é quando vovó grita cinco horinha no meio do terreiro: está na hora de banhar, pega o balde de cujuba e a cuia. Agora são os curumim que descem a grande ladeira do quilombo, pois Erê banhado no Satuba quando sobe a ladeira não quer mais nada, nem brincadeira, só quer a cuia no chão, em cima da mensaba e cheia de pirão, pois buchinho arrumado é faz-me rir, depois é deitar e rezar pra dormir.
PERCEBAM A MATRIZ IDEOLÓGICA.
Eu sou a impercepção colonial, não sou um fragmento de fundamento bélico, nem tampouco a globalização, que nada em rios cujos saneamentos são bostas. A clássica galeria európica, cujas fezes são símbolos de adoração. Eu não vivo a Europia. Eu não sou uma reprodutora.
Eu sou a impercepção colonial, porque sou tecnologia ancestral. Minha matriz ideológica é africana, é pindorâmica. Pois bem: eu não sou mestiçagem. Tampouco vocês são. Sou afro-pindorâmica. O meu Deus não é o cifrão da pátria Brasil, que já nasceu extinta.
Eu sou a impercepção colonial; o meu mundo é o passado, a utopia presente da possibilidade de vossos futuros. Eu sou uma raiz de revolução. E a minha deusa é a terra. A transformação que me alimenta sem me cobrar nada em troca.
PERCEBAM A DISTOPIA NARRATIVA.
Calma aí, calma aqui, calma acolá,
é teu lado o inferior, a morada do faltar,
pois me digam irmãos, se não é de espantar,
é nas cidades com riqueza onde existe o matar
de fome e de sede
e se diz que é o “naturar”.
...
Me venderam a fome, logo a mim que sou semente da terra. Me venderam remédios em drogarias, logo a mim que sou ervas de cura. Me venderam falsas palavras, logo a mim que sou contador e escutador de orikís. De tudo que tentaram me entregar, o que continuam querendo que eu repita é um looping chamado des-envolvimento.
Irmãos, lembrem-se sempre do Sankofa, lembrem-se também da nossa língua Gaia-originária. Irmãos, a humanidade é bélica; o que já sabemos desde o passado. O que precisamos é levar em nossos Orís o envolvimento, pois é ubuntu, é pertencimento, dignidade e, em palavreado mais simples, é apenas o bem-viver, corpo-terra.

Só retornam a mim minhas partes selvagens, seres que se permitem sentir e viver o meu movimento, que se fundamenta em uma bibliografia de memórias que se alimenta com o tempo e se chama encantamento, a vida que se transforma e nunca morre. Irmãos, deixem que nos ofertem a “humanidade”, porém lembremos que somos apenas uma semente que caminha e fala. E é isto que alimenta a essência dos seres-terra, filhos de Gaia.
PERCEBAM A GRANDEZA DOS EBÓS.
As cidades são pratos vazios e bicos secos, são desertos alimentares, e ainda estigmatizam o meu turá, que é fartura, rotulando como exótico; meu turá, quebra bucho que traz cura. É moqueca na folha de bananeira, é escaldado pra ter sustança, é cafofa, é preparo de cuxá, é alimento do espírito, que também traz vida e alimenta a esperança.
Mais do que a certeza da memória, há em unanimidade a superioridade da Terra, verdade absoluta que está no ontem, além de qualquer anseio de um presente futuro. Na corrida entre holofotes encenam miragens, ascensão por paleta de cores, mundo caucasiano onde negligenciam a verdade das palavras e da vida, tudo assegurado pela mesquinhez dos cifrões.
Mil e quinhentos ainda é aqui. Brasil, a pátria genocida que busca no sepulcro sucumbir os filhos de Pindorama, povos que carregam o compromisso com a verdade da vida. Existe amor maior que a luta – em vida e morte – pelo direito à dignidade da Terra? Ei, pedaço de mim, quanto desenvolvimento há em um rico que é pobre por acúmulo ancestral? Pergunto para essa farsa de nação, como pedir paz se você me mostrou a guerra? Como pedir calma se você me trata com violência? O meu corpo preto é a pedra de todas as memórias, as que me antecedem e as que virão depois de mim.
Não fui e nunca serei descendente de escravo; escravizaram os meus, povos assassinados, estuprados e saqueados por uma falsa nação, farsa ideológica caucasiana e podre, cuja herança é invasão, correntes, porões, tronco, açoite, berlinda, esmaga seios, esquartejamento, cepo, cegonha, pelourinho, fogueira, forca vira mundo, pau de arara, mordaça, máscara de ferro, flandres, por Cristo - purificação dos pés, algemas, fuzilamento. Três milhões, treze mil quatrocentos e quarenta horas dos trezentos e quarenta e quatro anos de brutalidade sofridos até aqui. O meu equilíbrio é a selvageria de toda crueldade até hoje vivida por mim. Meu corpo preto está forjado de ação/reação.
De agora em diante, retomaremos 1500 e 1948, apagaremos as estórias e contaremos as Histórias. Como bom indígena de Alkebu-lan, vou incendiar o mundo das invenções, que sufoca as belezas com belicismo, mentiras e alveja pelas costas em genocídios e etnocídios. Acendeu-se a chama da revolução e do ódio, da insubmissão, da insurgência, do ceifamento dos estupros que nascem da branquitude. Esse é o tempo de agir, de revelar essa manipulação mundana e racista.
Por isso, é necessário retomar as narrativas e falar de mundos reais, mundos lapidados, esculpidos em atrevimento e coragem, onde o medo é desimportante. Nos levantemos com a certeza de que o ódio é o nosso sentir comprimido em tempos tempestuosos. Façamos então, de imediato, tudo que alimenta nosso espírito, porque somos a força e a vida em uma chama infinita de amor e revolução.
PERCEBAM QUEM SÃO VOCÊS.
ENQUANTO OS LEÕES NÃO CONTAREM SUAS HISTÓRIAS, ELAS SEMPRE SERÃO NARRADAS PELOS CAÇADORES.
*Zica Pires é Artista, Pedagoga e Criadora do Coletivo Agentes Agroflorestais Quilombolas (AAQ) do Quilombo Santa Rosa dos Pretos - MA.
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Esta série de textos teve apoio do Programa Roçado: Comunicação frente à emergência climática. Uma iniciativa voltada para fortalecer redes de comunicação popular e comunitária com foco em justiça climática e sistemas alimentares. Mais informações: https://ojoioeotrigo.com.br/rocado.
Coordenação e edição da série: Fátima Tertuliano e Ludmila Pereira




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